Estimativas das probabilidades de agress√£o policial por cor e origem

Introdução

A literatura internacional tem mostrado evid√™ncias que o policiamento ostensivo tende a ‚Äúprivilegiar‚ÄĚ minorias como alvo para sua a√ß√£o. Negros e hisp√Ęnicos nos EUA, negros e asi√°ticos na Gr√£-bretanha. Neste √ļltimo pa√≠s estima-se que 91% dos jovens negros s√£o objetos de abordagens policiais ao longo do ano, enquanto que para os jovens brancos esse n√ļmero √© de 25 a 30% (Cf. Norris, Fielding, Kemp e Fielding).

No caso brasileiro, caso se constate esse vi√©s, temos um agravante pelo hist√≥rico de viol√™ncia e letalidade da a√ß√£o policial. O problema vai al√©m da √† abordagem, embora uma conduta discriminat√≥ria nesse procedimento tenha impactos na efici√™ncia e na imagem da pol√≠cia; estamos falando de agress√£o f√≠sica com importantes conseq√ľ√™ncias.

Na Europa e EUA os alvos s√£o os negros e os imigrantes. No Brasil a imigra√ß√£o estrangeira recente √© pequena, mas a mobilidade dentro do territ√≥rio nacional √© grande. Ser√£o esses migrantes, em especial aqueles que v√™m dos estados do nordeste, alvo priorit√°rio da pol√≠cia paulistana assim como os hisp√Ęnicos e asi√°ticos nos pa√≠ses do primeiro mundo?

O foco do trabalho é a relação entre a cor e a origem dos cidadãos com a agressão policial. A origem (nordestinos/ não-nordestinos) e a cor (negros/não-negros) têm algum impacto na probabilidade de um indivíduo ser agredido pela polícia?

N√£o pretendermos dar uma explica√ß√£o das raz√Ķes pelas quais a agress√£o policial acontece; um modelo que procurasse dar conta da agress√£o policial precisaria ter informa√ß√Ķes sobre tr√™s aspectos da quest√£o: as caracter√≠sticas do sujeito agredido (sexo, idade, cor, atitude, passado, comportamento, etc), do agente policial agressor (al√©m do seu perfil demogr√°fico, seu posto, experi√™ncia, treinamento, comportamento, etc.) e das circunst√Ęncias em que o fato ocorreu (que informa√ß√Ķes a pol√≠cia dispunha, que tipo de comportamento a v√≠tima apresentava, o ambiente era ou n√£o violento, etc.). Em nosso survey s√≥ dispomos de boas informa√ß√Ķes sobre a v√≠tima e seu comportamento habitual, n√£o sabemos como ela se comportava no momento em que foi agredida e absolutamente nada sobre as caracter√≠sticas do policial agressor, nem sobre as circunst√Ęncias em que essa agress√£o se deu.

Alguns autores poderiam objetar que mesmo encontrando correla√ß√Ķes entre a agress√£o e as caracter√≠sticas demogr√°ficas dos indiv√≠duos nossa an√°lise ficaria incompleta, pois o comportamento agressivo dos policiais poderia ter sido motivado pela conduta do indiv√≠duo (cf. Waddington 1983) ou √† pela presen√ßa da v√≠tima em locais de risco. Assim adicionamos controles para isso em nosso modelo.

 

Os dados

O texto tem por base um survey de vitimização realizado pelo Instituto Futuro Brasil (IFB) no município de São Paulo em 2003, com 5.000 entrevistas, distribuídas em 1.000 setores censitários e por 95 distritos.

A pesquisa é representativa da população paulistana, mas em nosso estudo focalizaremos apenas uma parcela dos respondentes. Sabemos que a violência na cidade de São Paulo afeta de forma bem mais intensa os homens jovens, o mesmo ocorre com a ação policial. Os homens são muito mais abordados do que as mulheres e os jovens mais do que os velhos. Dados desde survey mostram que razão de probabilidade de um homem ser abordado pelo polícia é 8,9 vezes maior do que das mulheres e os jovens têm uma razão de probabilidade 3,4 vezes maior do que a dos mais velhos. Na tabela 1 e no gráfico 1, vemos que a agressão policial também é bastante seletiva contra esses dois grupos.

Para simplificar o modelo optamos por concentrar nossa aten√ß√£o neste grupo mais vitimizado, homens jovens entre 17 e 27 anos, mas todas as rela√ß√Ķes apresentadas aqui apontam na mesma dire√ß√£o quando consideramos todos os indiv√≠duos da amostra.

Gr√°fico 1. N√ļmero de indiv√≠duos agredidos pela pol√≠cia segundo a idade da v√≠tima. Fonte: IFB (todos os casos / N = 4997)

Gr√°fico 1. N√ļmero de indiv√≠duos agredidos pela pol√≠cia segundo a idade da v√≠tima. Fonte: IFB (todos os casos / N = 4997)

 

Tabela 1. Porcentagem de indivíduos agredidos pela polícia segundo gênero.

 

Agressão da polícia

Total

N√£o

Agredido

Gênero Masculino

95,8

4,2

100,0

Feminino

99,6

0,4

100,0

Total

97,8

2,2

100,0

Signific√Ęncia Chi-quadrado menor que 0,05

Fonte: IFB (todos os casos / N = 4995)

 

Como j√° dissemos acima a agress√£o policial tem muitas causas, limitados em analisar as causas ligadas √† v√≠tima, podemos separar as vari√°veis independentes em tr√™s grandes grupos: discriminat√≥rias (nosso alvo), ligadas a atitudes e a situa√ß√Ķes.

As vari√°veis discriminat√≥rias que s√£o nossa prioridade s√£o a cor e o estado de origem da v√≠tima. Temos firme convic√ß√£o que a diferen√ßa de procedimento adotada pela pol√≠cia na abordagem de pessoas com caracter√≠sticas s√≥cio-demogr√°ficas distintas tem como causa comportamento discriminat√≥rio, mas para demonstrar isso ter√≠amos que estudar o processo de forma√ß√£o do conceito de ‚Äúra√ßa‚ÄĚ e de ‚Äúoutro‚ÄĚ (imigrante, nordestino, etc.) dentro do quadro da pol√≠cia (Cf. Holdaway 1997). Mas isso vai al√©m dos objetivos desse trabalho; nos limitaremos a utilizar o conceito de discrimina√ß√£o com cautela.

As variáveis de atitudes se referem principalmente a comportamento agressivo. Waddington argumenta que não é a discriminação por parte da polícia que leva à abordagem excessiva de negros, mas o comportamento agressivo e desrespeitoso dessa parcela da população para com a autoridade; Pilivian e Briar mostram que os indivíduos com comportamento não-cooperativo e desrespeitoso têm maiores probabilidades de serem presos. Segundo essa tese devemos observar mais casos de agressão policial contra indivíduos agressivos e devemos encontrar mais indivíduos agressivos junto aos negros e nordestinos.

Por fim o √ļltimo grupo de vari√°veis independentes s√£o aquelas relativas √†s situa√ß√Ķes nas quais os indiv√≠duos se inserem. Pessoas que tem o h√°bito de freq√ľentar ambientes onde a tens√£o √© maior deveriam ter maiores probabilidades de confronto com a pol√≠cia e conseq√ľentemente de serem agredidos.

No quadro 2 apresentamos as vari√°veis do survey do IFB que utilizamos para operacionalizar tanto a agress√£o policial ( AGRESS√ÉO) como os tr√™s grupos de vari√°veis correlacionadas com a agress√£o: as discriminat√≥rias (COR e ORIGEM), as atitudes (ABUSO DE √ĀLCOOL, AGRESSIVIDADE e PORTE DE ARMA) e as situa√ß√Ķes (EVENTOS ESPORTIVOS, BARES e SHOWS). Acrescentamos um √ļltimo elemento a renda familiar do indiv√≠duo para um controle mais rigoroso.


Quadro 1. Vari√°veis do modelo

Vari√°vel

Pergunta no question√°rio IFB

AGRESS√ÉO Entre julho de 2002 e junho de 2003 algum PM, policial civil ou militar das For√ßas Armadas fez com que o(a) Sr(a) passasse por alguma das seguintes situa√ß√Ķes…. Sofresse alguma forma de agress√£o f√≠sica ou maltrato. Sim = 1, N√£o = 0.
COR Qual a cor/ra√ßa do entrevistado? Pretos, pardos e ind√≠genas foram classificados como negros (c√≥digo 1) e brancos e amarelos como ‚Äún√£o-negros‚ÄĚ (c√≥digo 0).
ORIGEM Em qual estado o(a) Sr(a) nasceu ?-                 NORD: Naturais dos estados do nordeste foram classificados como nordestinos (cód. 1) ou de mais como não-nordestinos (cód. 0).-                 MIGRA2: Paulistas = 0, Mineiros = 1, Nordestinos = 2, demais = 3
ABUSO DE √ĀLCOOL Quantas vezes no √ļltimo m√™s, o(a) Sr(a) tomou mais de cinco doses de qualquer bebida alco√≥lica ou tomou mais de cinco latas ou duas garrafas de cerveja em uma mesma ocasi√£o? Quem respondeu mais de dez vezes foi classificado como ‚Äúabuso‚ÄĚ (c√≥d. 1) os demais ‚Äún√£o-abuso‚ÄĚ (c√≥d. 0).
AGRESSIVIDADE Entre julho de 2002 e junho de 2003, quantas vezes, no meio de algum problema, o(a) Sr(a) gritou contra algu√©m que n√£o era seu familiar ? Foram classificados como agressivos (c√≥d. 1) os indiv√≠duos que responderam ‚Äú√†s vezes (3 a 5)‚ÄĚ e ‚Äúfreq√ľentemente‚ÄĚ (6 ou mais).
PORTE DE ARMA Quando o(a) Sr.(a) sai de casa, leva consigo alguma arma de fogo para se proteger? Sim = 1, N√£o = 0.
EVENTOS ESPORTIVOS Entre julho de 2002 e junho de 2003 o(a) Sr(a) assistiu a algum evento esportivo amador ou profissional ao vivo? Sim = 1, N√£o = 0.
BARES Com que freq√ľ√™ncia o(a) Sr(a) costuma ir a um bar ou botequim?‚ÄúQuase todos os dias‚ÄĚ = 1, outras op√ß√Ķes = 0
SHOWS Entre julho de 2002 e junho de 2003 o(a) Sr(a) foi a algum show ou concerto de m√ļsica? Sim = 1, N√£o = 0.
RENDA Agora gostaria de saber qual é a renda mensal da sua família, incluindo o(a) Sr(a), quero dizer: juntando salário, pensão, rendimento de investimento, auxílio-desemprego, etc. de todos os que moram na sua casa, e sem considerar os descontos, quanto vocês ganharam em junho de 2003? Até 2 salário mínimos = 1 rendas maiores = 0.

 

Resultados

As tabelas 2 e 3 abaixo mostram as diversas formas de abordagem policial descritas no survey do IFB e a porcentagem de indivíduos que sofreram alguma delas no ano anterior à pesquisa segundo as variáveis do tipo discriminatório.


Tabela 2. Porcentagem de indivíduos que responderam sim às perguntas:

Entre julho de 2002 e junho de 2003 algum PM, policial civil ou militar das For√ßas Armadas fez com que o(a) Sr(a) passasse por alguma das seguintes situa√ß√Ķes….

 

Cor do entrevistado

Branco

Negro

 Razão Negro/Branco

Apresentasse documentos

48,6

52,5

1,08

Fosse revistado(a)

50,8

55,9

1,10

Fosse ameaçado(a)

8,2

10,7

1,30

Fosse desrespeitado(a)

17,7

20,7

1,17

Fosse preso ou detido

3,2

5,3

1,66

Alguma forma de agressão física/maltrato

6,0

12,9

2,15

Fonte: IFB (homens jovens/ N = 867)

 

Tabela 3. Porcentagem de indivíduos que responderam sim às perguntas:

Entre julho de 2002 e junho de 2003 algum PM, policial civil ou militar das For√ßas Armadas fez com que o(a) Sr(a) passasse por alguma das seguintes situa√ß√Ķes….

 

Nordestino

Outros Estados

Nordestino

 Razão

Nordestinos / Outros

Apresentasse documentos

51,8%

44,3%

0,86

Fosse revistado(a)

53,7%

51,3%

0,96

Fosse ameaçado(a)

9,9%

6,8%

0,69

Fosse desrespeitado(a)

20,3%

13,6%

0,67

Fosse preso ou detido

4,3%

3,7%

0,86

Alguma forma de agressão física/maltrato

10,5%

4,2%

0,40

Fonte: IFB (homens jovens/ N = 867)

 

A tabela 2 n√£o deixa d√ļvida quanto a maior incid√™ncia de agress√£o policial contra os negros. Todos os cruzamentos v√£o no sentido da nossa hip√≥tese, embora o teste de chi-quadrado com signific√Ęncia menor que 0,05 aponte apenas a rela√ß√£o entre cor e agress√£o f√≠sica como estatisticamente significante.

No caso dos nordestinos da tabela 3 a √ļnica rela√ß√£o significante pelo teste do chi-quadrado (< 0,05) √© a agress√£o, mas todas elas apontam na dire√ß√£o contr√°ria √† da nossa hip√≥tese. Isso pela preval√™ncia de abordagens e agress√Ķes contra os nascidos no estado de S√£o Paulo, embora todas as agress√Ķes contra migrantes tenham tido como alvo pessoas nascidas ou nos estados do nordeste ou em Minas Gerais (vide figura 1).

Figura 1. Distribui√ß√£o geogr√°fica do local de nascimento das v√≠timas de agress√£o policial. Fonte: IFB ‚Äď Todos os casos (N = 4910)

Figura 1. Distribui√ß√£o geogr√°fica do local de nascimento das v√≠timas de agress√£o policial. Fonte: IFB ‚Äď Todos os casos (N = 4910)

 

A tabela 4 abaixo resume as informa√ß√Ķes sob agress√£o policial segundo nossas vari√°veis de controle para agressividade, situa√ß√£o e a renda. Todas as rela√ß√Ķes s√£o significativas (signific√Ęncia do chi-quadro <0,05) e apontam na dire√ß√£o da nossa hip√≥tese.

Tabela 4. Porcentagem de indiv√≠duos agredidos pela pol√≠cia segundo vari√°veis de atitudes e situa√ß√Ķes.

 

Agressão da polícia

Total

N√£o

Agredido

ABUSO DE √ĀLCOOL N√£o

91,6%

8,4%

100,0%

SIM

71,7%

28,3%

100,0%

AGRESSIVIDADE N√£o

92,4%

7,6%

100,0%

Sim

83,4%

16,6%

100,0%

PORTE DE ARMA N√£o

90,8%

9,2%

100,0%

SIM

65,7%

34,3%

100,0%

EVENTOS ESPORTIVOS N√£o

92,5%

7,5%

100,0%

SIM

88,4%

11,6%

100,0%

BARES N√£o

92,2%

7,8%

100,0%

SIM

83,2%

16,8%

100,0%

SHOWS N√£o

92,1%

7,9%

100,0%

SIM

88,3%

11,7%

100,0%

RENDA + 2 SM

91,5%

8,5%

100,0%

Até 2 SM

83,8%

16,25%

100,0%

Fonte: IFB (homens jovens/ N = 867)

 

Pelos dados apresentados at√© agora n√£o resta d√ļvida que os negros, as pessoas com atitudes agressivas e as que freq√ľentam ambientes de poss√≠vel confronto t√™m maiores probabilidades de serem agredidos pela pol√≠cia. O caso dos nordestinos √© oposto, os naturais do estado de S√£o Paulo s√£o as v√≠timas ‚Äúpreferenciais‚ÄĚ da pol√≠cia.

Nosso próximo passo é testar a hipótese de Waddington de que os negros e paulistas tenham atitudes que induzam ao confronto ou, nos nossos termos, que esses dois grupos apresentem maiores taxas de agressividade, abuso de álcool e porte de armas.

A matriz de correla√ß√£o apresentado no quadro 2 confirma as observa√ß√Ķes anteriores de que as vari√°veis discriminat√≥rias e de atitudes do nosso modelo est√£o correlacionadas com a incid√™ncia de agress√£o policial, mas n√£o mostra correla√ß√Ķes entre agress√£o policial e a presen√ßa em situa√ß√Ķes de conflito em potencial. Esse mesmo quadro refuta a tese de Waddington, pois n√£o apresenta nenhuma correla√ß√£o entre cor ou origem dos indiv√≠duos com comportamento potencialmente conflituosos (tanto comportamento agressivo, como freq√ľ√™ncia a locais de conflito).

Devemos lembrar que n√£o sabemos qual foi o comportamento da v√≠tima durante o evento que causou a agress√£o, apenas seu comportamento habitual, mas n√£o nos parece plaus√≠vel que um indiv√≠duo que raramente ou nunca apresente comportamentos ‚Äúdesviantes‚ÄĚ v√° ter esses comportamentos juntamente no contato com a pol√≠cia. Do mesmo modo n√£o sabemos onde os indiv√≠duos estavam quando foram agredidos, mas sabemos que raramente eles freq√ľentam bares, v√£o a shows ou eventos esportivos.

O √ļltimo passo ser√° incluir todas as vari√°veis num modelo de regress√£o log√≠stica (LOGIT) para verificarmos se a intera√ß√£o entre todas as vari√°veis confirma nossa hip√≥tese de vi√©s discriminat√≥rio na agress√£o policial.

 

Quadro 2. Matriz de correlação Spearman - Características das vítmas. Fonte: IFB (homens jovens)

Quadro 2. Matriz de correlação Spearman РCaracterísticas das vítmas.
Fonte: IFB (homens jovens)

No modelo completo inclu√≠mos como vari√°veis independentes: cor, origem, abuso de √°lcool, agressividade, porte de arma, eventos esportivos, bares, shows e renda. Corroborando as an√°lises precedentes quase todas as vari√°veis apontam para o aumento das raz√Ķes de probabilidade de ser agredido pela pol√≠cia. A √ļnica vari√°vel que destoa da nossa hip√≥tese e a origem, onde os nordestinos t√™m uma taxa sensivelmente inferior.

Assim como apontando pela matriz de correla√ß√£o do quadro 2, as vari√°veis ligada a freq√ľ√™ncia em eventos de conflito em potencial apontam na dire√ß√£o da nossa hip√≥tese, mas n√£o s√£o significativas (como crit√©rios usamos o teste de Wald, signific√Ęncia < 0,05). Constru√≠mos um modelo simplificado onde essas vari√°veis foram exclu√≠das, o resultados est√° no quadro 3 abaixo.

Quadro 3. Regressão logística (LOGIT) para probabilidade de sofrer agressão policial

 

B

S.E.

Wald

df

Sig.

Exp(B)

COR

0,982

0,286

11,807

1

0,001

2,671

ORIGEM

-1,016

0,476

4,561

1

0,033

0,362

ABUSO DE √ĀLCOOL

1,123

0,439

6,545

1

0,011

3,074

AGRESSIVIDADE

0,818

0,288

8,078

1

0,004

2,266

PORTE DE ARMA

2,039

0,870

5,498

1

0,019

7,684

RENDA

0,763

0,344

4,911

1

0,027

2,144

Constante

-3,169

0,268

140,083

1

0

0,042

 

-2 Log likelihood

Cox & Snell R 2

Nagelkerke R 2

404,229

0,057

0,123

 

Como se vê pelos pseudos R2 o modelo explica muito pouco da agressão policia, mas como já dissemos esse não é nosso objetivo. O que queremos aqui é mostrar se há ou não um viés no sentido de agredir mais negros e nordestinos e isso está demonstrado para os negros e refutado para os nordestinos.

A razão de probabilidade de um negro ser agredido é 2,7 vezes maior do que a de um branco; no caso dos nordestinos é de pouco mais de um terço daquelas observadas nos nascidos em outros estados. Vale destacar que o comportamento agressivo e desviante do indivíduo tem uma enorme influência na probabilidade de ser vítima da polícia.

 

Conclus√£o

Tiramos quatro conclus√Ķes:

  1. Negros são mais agredidos do que brancos, independentemente do comportamento e hábitos do indivíduo;
  2. Freq√ľ√™ncia a lugares com forte aglomera√ß√£o de pessoas n√£o aumenta significativamente as probabilidades de ser agredido pela pol√≠cia.
  3. Os nordestinos s√£o menos agredidos do que os paulistas;
  4. Pessoas com comportamento de risco s√£o muito mais agredidas;

 

O fato de que os negros s√£o muito mais agredidos pela pol√≠cia do que os brancos, foi a conclus√£o mais importante deste trabalho. Independente das suas atitudes e dos seus h√°bitos essa parcela da popula√ß√£o √© alvo de um tipo de pr√°tica policial conden√°vel. Com certeza as causas desse fen√īmeno est√£o ligadas √† processos discriminat√≥rios que perpassam toda a sociedade e mostra sua face mais violenta juntamente na institui√ß√£o recebeu da sociedade o direito de usar a for√ßa, mas dizer que nossa pol√≠cia √© um reflexo da nossa sociedade √© insuficiente. Para explicarmos a agress√£o policial contra negros precisamos compreender o que significa ser negro para a pol√≠cia e como esse significado √© constru√≠do no interior da corpora√ß√£o (Cf. Holdaway 1997).

Freq√ľ√™ncia a bares, shows e jogos √© um direito do cidad√£o, n√£o h√° d√ļvida que n√£o podemos classificar isso como comportamento de risco. O fato de n√£o encontrarmos fortes evid√™ncias de que esses h√°bitos aumentem os riscos de sofrer agress√£o policial n√£o √© surpreendente, mas devemos notar que a as vari√°veis utilizadas tratam dos h√°bitos do indiv√≠duo e n√£o daquilo que ele fazia no momento da agress√£o; antes de excluir totalmente esses h√°bitos precisamos pesquisar os locais onde essas agress√Ķes acontecem.

No caso dos nordestinos os dados disponíveis refutaram nossa hipótese. Contudo, sem deixar de considerar as evidências que encontramos até agora, podemos dizer que nosso conceito operacional de nordestino é bastante precário. A forma que o policial identifica num primeiro momento a origem do indivíduo que irá ser abordado passa por características físicas que são bastante sutis e num segundo momento por peculiaridades da linguagem; o policial só ira saber o estado de nascimento após examinar os documentos do indivíduo. A distinção entre nordestinos e não-nordestinos está muito mais ligada a um estereótipo do nordestino do que ao estado em que o indivíduo efetivamente nasceu.

Naturais do estado de S√£o Paulo filhos de pa√≠s nordestinos podem apresentar tanto caracter√≠sticas f√≠sicas como o linguajar pr√≥prio dos nascidos no nordeste e serem vistos assim por pessoas que valorizam essas caracter√≠sticas, no nosso caso policiais agressores. Inversamente naturais do nordeste que est√£o em S√£o Paulo h√° muito tempo, em especial aqueles que passaram a inf√Ęncia neste munic√≠pio, podem ter perdido boa parte do falar caracter√≠stico e como as diferen√ßas f√≠sicas s√£o pequenas podem facilmente passar por paulistanos.

N√£o podemos descartar ocorram erros de avalia√ß√£o, ou seja, podemos encontrar indiv√≠duos agredidos por ser nordestinos sem de fato o ser e nordestinos que escaparam de uma agress√£o por parecer paulista. Para resolver essa quest√£o precisar√≠amos de uma pesquisa que envolvesse um maior n√ļmero de migrantes e ter quest√Ķes que nos permitam refinar o conceito de nordestino, como tempo de resid√™ncia na regi√£o metropolitana, estado de origem dos pais, classifica√ß√£o do linguajar e alguma descri√ß√£o da apar√™ncia embora seja dif√≠cil classificar exaustivamente os indiv√≠duos pelo seu fen√≥tipo.

Agress√£o f√≠sica e maltrato √© totalmente injustific√°vel, mas apresentamos evid√™ncias que o comportamento agressivo, incluindo a√≠ o abuso de √°lcool e o porte de arma de fogo, tem enorme impacto nas taxas de agress√£o. Neste caso a v√≠tima tem uma grande dose de responsabilidade, mas mostramos tamb√©m que as caracter√≠sticas da v√≠tima s√£o insuficientes para explicar a maior parte dos eventos de agress√£o policial, o que joga novamente para as m√£os da policia e das circunst√Ęncias a causa desses eventos.

 

Bibliografia:

Holdaway, S. ‚ÄúConstructing and sustaining ‚ÄėRace‚Äô within the police workforce‚ÄĚ. The British Journal of Sociology. Vol. 48, No. 1 (Mar., 1997), pgs. 19-34.

Norris, C.; Fielding, N.; Kemp, C. & Fielding, J. ‚ÄúBlack and Blue: an analysis of the influence of race on being stopped by police‚ÄĚ. The British Journal of sociology. Vol. 43, No. 2 (Jun.1992) pg. 207-224.

Pilivian, I & Briar, S. ‚ÄúPolice encounters with juveniles‚ÄĚ. American Journal of Sociology, vol. 70, 1964.

Waddington, P.A.J., ‚ÄúAre the police fair?‚ÄĚ. Research Paper 2, London: Social Affairs Unit, 1983.